Magnifica Humanitas
Primeiras Impressões (Evandro Pontes)
Após leitura dupla e atenta do documento, de onde tomei notas e extraí o que me pareceu ser o cerne desta primeira Encíclica do Papa Leão XIV, compartilho sem demora as primeiras impressões formadas desde o fim da segunda leitura.
O documento é extenso, mas não é nem um pouco difícil de ser lido, nem tampouco de ser compreendido.
Possivelmente escrito em espanhol e vertido para as demais línguas adotadas para a sua divulgação (árabe, alemão, inglês, francês, italiano, português e polonês), o documento conta com pouco mais de 50 páginas divididas em 245 Parágrafos, que por sua vez são subsidiados por 224 notas de fim de texto.
A Encíclica está dividida em 5 Capítulos precedidos de uma Introdução e seguidos de uma Conclusão.
Na Introdução, são apresentadas duas imagens Bíblicas: a da Torre de Babel e a da Construção do Muro de Jerusalém.
O Primeiro e o Segundo Capítulos cuidam de reconceituar a Doutrina Social da Igreja em novos termos.
Exatamente isso, leitor, leitora: Leão XIV não apenas rejeita as vigas-mestras da Doutrina Social consolidada por Leão XIII como, em especial, adapta-as aos tempos modernos. Tratarei deste ponto logo abaixo.
O Terceiro Capítulo é dedicado à questão da “Inteligência Artificial”.
No Quarto, apresentam-se novos parâmetros no conceito de trabalho e liberdade individual, bem como de família, que ao seu modo se distanciam do conceito consagrado por Leão XIII na Rerum novarum.
No Quinto, onde é abordada a questão da “civilização do amor”, a Encíclica toca no tema das guerras e do papel da revolução digital nesse contexto.
A Conclusão é um único ponto, ao lado da Introdução, onde é dada alguma atenção a temas de Teologia, em linha com o espírito da Nouvelle Theologie “reformada” – qual seja, a Teologia de Leão XIV não segue a de von Balthasar, de Lubac, Congar, Rahner e tutti quanti. Passou, em primeira impressão, que a Teologia prevostiana assenta-se num carismatismo peculiar de uma Nouvelle Theologie “revista” ou “aggiornatta”.
Para que se possa, portanto, compreender qual o fundamento dessa forte impressão causada, é essencial que o leitor entenda o que há por trás de todo o movimento teológico que essa Encíclica traz. Nesse sentido, todo o corpo elementar dos arranjos de pensamento estão claramente assentados na obra de Jacques Maritain, em especial em seu Humanismo Integral.
Lançado em 1936 sob o nome Humanisme Intégral: problèmes temporels et spirituels d’une nouvelle chrétienté (“Humanismo Integral: problemas temporais e espirituais de uma nova cristandade”), a obra recebeu cuidadosa tradução de Margarida Hulshorf para a Cultor de Livros de São Paulo em 2017.
Dela podemos extrair este conceito sobre o Humanismo Integral: “A filosofia social e política envolvida no humanismo integral requer, para nosso atual regime de cultura, mudanças radicais; ou digamos, para empregar analogicamente o vocabulário hilemorfista, uma transformação substancial. E essa transformação exige não somente a instauração de novas estruturas sociais e de um novo regime de vida social para suceder ao capitalismo, mas também, e consubstancialmente, um crescimento das forças de fé, da inteligência e de amor que brotam das fontes interiores da alma, um progresso na descoberta do mundo das realidades espirituais. Somente nessas condições o homem poderá realmente avançar mais fundo nas profundezas de sua natureza, sem a mutilar nem a desfigurar” (Op. cit., p. 98).
Se o leitor e a leitora não entenderam, tudo bem – uma das marcas registradas de Maritain é a sua falta de clareza e o seu embotamento mental, típicos da linguagem dos revolucionários.
O que importa ao leitor e à leitora é compreender que Maritain, com seu Humanismo Integral faz uma proposta claríssima de substituição do capitalismo por uma estrutura progressista de poder temporal, dando Cristo como sua desculpa predileta.
Há anos venho me debruçando sobre a obra de Maritain, o amigão do Papa Paulo VI e que o apresentou para outro amigão dele, – o agitador Saul Alinsky. A obra de Maritain, mais do que de qualquer outro da Nouvelle Theologie tem papel fundamental para se compreender qual o pano de fundo teológico sob o qual da coxia da peça teatral chamada “Concílio Vaticano II” foi integralmente soprada para os seus principais atores, em especial o polêmico Cardeal Bea.
Por força do aniversário da Dignitatis Humanæ, preparava eu um texto de análise desta Constituição Apostólica Conciliar, com foco no conceito de “dignidade” (dignitas, ou dignitatis), que informa a peça mais polêmica dentre todas as do Concílio Vaticano II.
De Mattei conta, na sua “história nunca escrita” acerca do Concílio Vaticano II, toda a influência que Maritain exerceu no Concílio, em especial no texto final da Dignitatis Humanæ. Fora esse texto que, na pressa, o Papa Paulo VI fez insuportáveis pressões para que pudesse ser apresentado na Assembleia Geral da ONU de 1965.
Não coincidentemente, Maritain é também o autor da Declaração Universal dos Direitos do Homem da ONU, que guarda exatamente esse mesmo vetor para um “novo conceito” para o termo “dignidade”, que por sua vez informa, de um lado, os documentos da ONU e de outro, os do Estado do Vaticano, que sem o menor pudor, usou a Santa Madre Igreja como sua “bucha de canhão”.
Isso é história.
Quanto ao presente, a Magnifica Humanitas recupera esse cerne teórico com esteio no Humanismo Integral: “Na Encíclica Populorum progressio, Paulo VI afirma que o desenvolvimento só é autêntico se for ‘integral’, ou seja, destinado a «promover todos os homens e o homem todo». Nas décadas seguintes, a Doutrina social da Igreja retomou e aprofundou esta expressão para indicar como os grandes princípios – dignidade, bem comum, destinação universal dos bens, subsidiariedade, solidariedade, justiça social – se concretizam na história. Por ‘desenvolvimento humano integral’ entende-se um processo em que o crescimento das pessoas e dos povos diz respeito a todas as dimensões da existência e abre o futuro também às gerações vindouras” (destaques nossos, §82, Magnifica Humanitas).
Leão XIV, na Magnifica Humanitas esclarece então o que Jacques Maritain havia deixado nas entrelinhas: se o capitalismo precisava ser substituído urgentemente, “por meio de uma transformação substancial”, não ficava claro ao tempo de Maritain o que deveria entrar no lugar do capitalismo que ele sugeria destruir. O tal “novo regime de vida social para suceder ao capitalismo” não havia ficado claro ao tempo em que o Humanismo Integral havia sido publicado e, nem ficou mais evidente durante ou após o Concílio Vaticano II.
Com Leão XIV, na esteira de Francisco, esse desiderato fica então evidente: “O desenvolvimento, tanto para as pessoas como para as nações, é simultaneamente uma tarefa e um direito: exige condições mínimas que possibilitem a cada pessoa e povo amadurecer de acordo com a sua dignidade, sem serem mantidos em situação de dependência ou excluídos do acesso aos bens necessários. O desenvolvimento é humano quando coloca as pessoas no centro e não a acumulação de bens, quando abrange também os povos e não apenas os indivíduos” (§83, Magnifica Humanitas).
O Humanismo Integral é, portanto, a consagração do homem no centro do mundo.
É o que o Padre Calderón já nos explicou em Prometeus – sob o truque retórico de retirar do centro do mundo os bens materiais, os expertos do Concílio tiram Cristo do centro do mundo para colocar o homem – “o desenvolvimento é integral quando não se reduz ao âmbito económico, mas promove a qualidade da vida nas suas dimensões espirituais, culturais, morais e relacionais, no respeito pela Casa comum, pela diversidade dos povos e pelos seus modos de viver” (§83, Magnifica Humanitas).
A Encíclica dedica um subcapítulo ao Capítulo III inteiro a esse conceito do Humanismo Integral, que temperado por essa nova Doutrina Social da Igreja, toma o nome de desenvolvimento humano integral, revelando assim sua inspiração pesadamente hegeliana.
A Encíclica como um todo está quase totalmente assentada em teologias conciliares ou pós-conciliares. Mais de 90% das citações são feitas com base em textos do Concílio ou em escritos dos Papas João Paulo II (o mais citado), Francisco (o 2º mais citado) e Paulo VI.
Leão XIII recebe algumas poucas citações, mas por clara “memória afetiva”, bem como Pio XII.
João XXIII também recebe uma citação, tal qual Bento XVI, com poucas menções.
E essas são as únicas fontes eclesiásticas citadas.
Há duas menções superficialíssimas a Santo Tomás de Aquino e algumas, também por memória afetiva, a Santo Agostinho (lembremos que Robert Prevost é membro da Ordem Agostiniana).
Na parte em que cita Leão XIII, não o faz para reafirmar o seu conceito tomista de Doutrina Social da Igreja, mas do Santo Padre que lhe foi antecessor no nome, sutilmente “corrige-lhe” o conceito de Doutrina Social da Igreja.
Estamos também preparando um documentário sobre Doutrina Social da Igreja e no curso dos estudos sobre esse tema, é fácil notar como a Doutrina da Igreja que consta dos quatro Evangelhos tem aspectos sociais desde o seu nascedouro. Não é despropositado afirmar que o aspecto social da Doutrina Católica vem diretamente de Cristo e ganha gigantescos reforços na Patrística, em especial com Santo Irineu de Lyon, São Lourenço de Huesca e, ele, sempre ele, Santo Ambrósio.
A Doutrina Católica, portanto, nunca se afastou de seus aspectos e propósitos sociais e com Leão XIII, essa linha expositiva que está assentada na Virtude Teologal da Caridade, recebe uma leitura tomista rigorosa para afastar toda e qualquer ideologia socialista, liberal ou modernista dos aspectos teológicos que têm a Caridade como centro das ações.
O duro combate que Santo Ambrósio fez ao que ele considerava um dos piores defeitos da alma, a avareza, está na base do conceito teológico de um aspecto social da Doutrina Católica que ele encerrou, inspirado por São Lourenço.
O Papa Prevost, entretanto, altera sutilmente esse conceito.
Para ele, a Doutrina Social da Igreja não é a doutrina do combate à avareza e do primado da Caridade. A Doutrina Social de Leão XIV não passa de um “diálogo com a ciência” (§3, Magnifica Humanitas): “Não se trata dum conjunto estático de conceitos, mas dum corpus vivo de verdades, que preserva e interpreta a vocação da humanidade à vida plena e justa. Desejo, portanto, juntar a minha voz a esta tradição viva, invocando a ajuda do Espírito de sabedoria, que habita o mundo desde os seus primórdios” (grifei). Ao referir-se à Tradição como base dessa Doutrina Social, Leão XIV cuidadosamente lança a bravata de Basile de Valuet sobre o conceito de “tradição viva”, truque que vai ser usado em breve para punir os bispos que haverão de sagrar e serem sagrados em Êcóne, em 1º de julho de 2026.
Leão XIV marca o aniversário da Rerum Novarum, mas não reafirmando-a, mas claramente mudando o seu conceito e a sua doutrina, ao gosto de Maritain.
Veja-se pelo prisma das duas imagens que são trazidas no início da Encíclica, a saber, a Torre de Babel e a construção das Muralhas de Jerusalém: ao divulgar a Encíclica em pleno Pentecostes, o Papa retira integralmente o conceito original da Torre de Babel, que deve ser oposta ao “Espírito de Pentecostes”, para que seja aposta à passagem de Neemias sobre a construção das Muralhas de Jerusalém.
O sofisma, sutil, não apenas afasta o sentido pentecostal da Torre de Babel por força dos dons do Espírito Santo, mas introduz uma nova oposição: a da comunhão versus a homogeneização (§7, Magnifica Humanitas).
Leão XIV, nessa falsa dicotomia, lança a seguinte ideia sobre a Torre de Babel: “é uma obra pensada sem referência a Deus, sustentada por uma uniformidade que elimina a diversidade e que, em vez da comunhão, opta pela homogeneização” (Idem) – na primeira parte, onde ele aponta a ausência de Deus, não há o que reparar. Mas logo a seguir lança sutilmente que o erro da Torre de Babel foi “tentar eliminar a diversidade”.
“Diversidade”, a palavra da vez, é trazida por Leão XIV como um bem a ser preservado, cultuado e adorado. É elevada ao ponto de “princípio absoluto” e, sabemos nós a razão a disso – bíblica que não é.
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Feitos esses apontamentos introdutórios que permitem ao leitor e à leitora situarem-se no arco histórico da evolução doutrinária desde a criação do Estado do Vaticano, podemos agora começar a entrar nos detalhes da Encíclica, sem esgotá-la e sem eximir que você, leitor, leitora, façam também a sua leitura.
Este texto, portanto, pode te ajudar na leitura, mas ele não substitui o dever de todo católico de ler essa carta que lhe foi endereçada diretamente pelo próprio Papa.
Pois bem – a Encíclica fala ainda na sua Introdução dos “desafios do Espírito Santo perante a revolução Digital”.
De modo geral, ainda podemos notar que essa Encíclica foi claramente redigida por mais de uma pessoa. Os estilos de escrita, os temas e o foco vão se alterando ao longo da leitura. Falta ao texto uma coesão – tudo ali aparenta que 3 ou 4 partes distintas foram juntadas em um mesmo papel, sem o devido enjambement entre uma parte e outra. As partes não representam um todo lógico.
Trabalho e salário, assim como o tema da família, não estão dentro do mesmo arco doutrinário e não recebem o mesmo tratamento teológico (isso, quando recebem algum) – as partes não se ligam e o discurso se dispersa uns inúmeros pontos do texto.
É um trabalho mal escrito, e embora fácil de ler, carece claramente de uma espinha dorsal que lhe dê unidade.
O Papa que clama tanto pela unidade falhou justamente nesse ponto ao escrever a sua primeira Encíclica: a Magnifica Humanitas não tem unidade. É um apanhado de ideias, algumas até tolas com ar de “autoajuda”, outras simulam um TCC sobre “ética na era digital” e, de modo geral, mesmo estando diante de um documento muito superior aos que Francisco publicava, temos nessa primeira Encíclica um trabalho muito aquém daqueles publicados por Bento XVI ou até por João Paulo II.
Nem se pense em comparar essa Encíclica com as de Pio IX ou Leão XIII: seria como comparar um pinheiro a um pé-de-feijão.
Mas, como pé-de-feijão, ainda supera o feno bergogliano. Pelo menos nesse aspecto relativo, melhoramos, embora estejamos ainda muito aquém do esperado.
O combate à homogeneização é retomado logo abaixo no §10 quando o texto resolve combater a ideia de uniformidade.
E aqui surge a primeira contradição: Leão XIV prega uma “unidade” sem “uniformidade” – o que ele sugere é um amálgama e não uma união. Toda união pressupõe, sob o ponto de vista metafísico, uma uniformidade ao menos de propósitos; mas não – ele quer unir mantendo a “diversidade”, que, como todos sabemos, é combustível de conflito. Prevost teme a “uniformidade que anula as diferenças”, mas ao mesmo tempo prega “igualdade” e combate com veemência as “desigualdades” querendo que todo o rebanho se distancie de qualquer situação de “desigualdade”.
Ele não quer “desigualdade”, mas também não quer “uniformidade” – esse tipo de contradição não se produz aleatoriamente e, sabemos todos, são frutos diretos do “espírito do Concílio”.
Esse combate ao anulamento das diferenças, mas de manutenção das “diversidades” monta um jogo de palavras claramente contraditório onde a Encíclica que deveria produzir clareza, acaba produzindo dúvida, contrariedade e confusão.
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Esse combate às diferenças com manutenção das diversidades (seja lá o que essa contradição signifique) encontra sugestivamente uma solução na tal parábola de Neemias da construção das Muralhas de Jerusalém.
Leão XIV fala de “reconstrução”: “reconstruir hoje significa reconhecer, na pluralidade de vozes e visões que por vezes lembra a dispersão das línguas, a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade” (§10, Magnifica Humanitas).
Note como ele combate a “Torre de Babel” e a mostra como algo negativo, mas ao mesmo tempo louva o seu pior efeito: a dispersão das línguas. O pior aspecto, o mais anti-pentecostal (no sentido católico do termo) vira uma “virtude”. Sua sugestão de “reconstrução” está, sem citar, em linha total com o conceito rabínico de Tikkun Olam: “No âmbito desta obra partilhada, os cristãos encontram a sua forma específica de construir: orientar a ação para Deus, de modo que, à sua luz, o pluralismo não se disperse na desordem, mas, pela prática da sinodalidade, se torne o lugar onde a humanidade reencontra os seus sólidos alicerces e o seu fim último” (§10, Magnifica Humanitas).
A sinodalidade, portanto, senhores e senhoras, é o aspecto conciliar da doutrina cabalística do Tikkun Olam, do “pluralismo que não se dispersa na desordem”, na reunião das centelhas perdidas, na “transformação da diversidade em ‘escuta’ e ‘diálogo’”, desde que, lógico, essa escuta não envolva gente como aquela que frequenta as Missas da FSSPX.
Esse Tikkun Olam disfarçado de sinodalidade se assenta no que Prevost chamou de “lógica da subsidiariedade” – se cada um fizer a sua parte, no fim dos tempos todas as partes serão novamente reunidas para cumprir com os desígnios puramente humanos da cristandade.
É, portanto, nesse conceito de sinodalidade que Leão XIV vai então reformar a Doutrina Social da Igreja, até então consolidada pelo último tomista do Vaticano, Leão XIII.
Sutilmente também a Encíclica explicita que há uma diferença entre Comunidade Eclesial e Comunidade Política e sem usar a mesma nomenclatura, admite indiretamente que o conjunto de Bispos da Igreja não se confunde com o conjunto de agentes nomeados pelo Estado do Vaticano: “este itinerário seria verdadeiramente incompreensível se, antes de nos debruçarmos sobre o contributo de cada um dos Pontífices e sobre os documentos mais relevantes, não aclarássemos algumas convicções fundamentais sobre o modo como a Igreja está presente na história e se relaciona com o mundo. Sem tal esclarecimento, a Doutrina social correria o risco de parecer uma ingerência indevida em questões temporais ou um código ético externo a ser aplicado de cima para baixo. Na realidade, ela nasce de uma Igreja que caminha com a humanidade, reconhece a autonomia das realidades terrenas e a distinção entre comunidade eclesial e comunidade política e, precisamente por isso, aspira a servir o bem comum” (§18, Magnifica Humanitas).
Por esse pequeno trecho, vemos mais uma vez e claramente como o problema do Vaticanismo é profundo e está na base da confusão pós-conciliar que vem sendo diariamente gerada, para a perplexidade de todos os católicos do mundo. Ideologia nefasta, faz o Estado do Vaticano e os interesses alinhados com uma doutrina global se colocarem acima da Igreja e de sua Tradição.
Mais: pela sinodalidade vaticanista, esse novo conceito de Doutrina Social da Igreja reduz o papel da própria Santa Madre Igreja a um “serviço”. Em suas próprias palavras, a Igreja passou a ser um mero “serviço de escuta”, um “serviço de diálogo”.
Levanta-se ai a primeira e gravíssima heresia produzida por esse documento, onde identificamos instantaneamente duas.
Pelo vaticanismo explícito, o Estado do Vaticano se ocupa da disciplina e a Igreja é alijada de seu aspecto redentor e disciplinar, para se tornar um mero “serviço de ombudsman”: “A Igreja, presente no mundo como sinal de unidade para toda a família humana, reconhece nas questões e nos desafios do tempo atual o lugar onde deve exercer a própria vocação à escuta, ao diálogo e ao serviço, deixando-se interpelar por tudo o que diz respeito à existência dos homens e das mulheres de hoje” (§18, Magnifica Humanitas).
Pior: Prevost claramente rebaixa a Igreja ao nível mundano – “Assim, ela coloca-se ao lado do mundo sem se lhe sobrepuser, para que em cada circunstância humana possa germinar a promessa de justiça e paz, que o Espírito Santo continua a suscitar no coração da humanidade” (§18, Magnifica Humanitas). Essa Igreja “ao lado do mundo e sem lhe sobrepor” é uma das mais graves heresias já cometidas na história da Igreja e foi colocada de forma explícita e literal contra todos os propósitos que Cristo investiu à sua perfeita e imaculada Esposa.
Equiparada ao “bom samaritano” e lançada a esterilidade de não poder substituir nem se sobrepor-se aos Estados, afirma com todas as letras que a Igreja “não visa oferecer uma palavra definitiva” ao seu rebanho. Neste ponto, sustenta-se em um dos piores documentos já saídos do Vaticano, a Laudato sì, da dupla Tucho-Bergoglio.
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Esse é, portanto, o espírito de reforma que Leão XIV imprime sobre a Doutrina Social da Igreja de seu antecessor, Leão XIII: uma ferramenta de “discernimento comunitário”; uma doutrina que não tema a diversidade, mas a acolhe e ordena tudo sob ela; uma doutrina que não “impõe o Evangelho de cima”, mas “cresce no tempo” (?!....); não elimina conflitos, mas os transfigura (bem ao modo da dialética hegeliano-marxista); recompõe aquilo que a história tende a dispersar (aka, Tikkun Olam).
Essa viragem no conceito tradicional da Doutrina Social da Igreja atende a um crasso erro de física, inclusive – com base em Bergoglio, Leão XIV reafirma que “o tempo supera o espaço” e, nesse detalhe, o espaço e doutrina devem ter um aspecto de um “poliedro”, sendo uma “verdade multifaces” (§26, Magnifica Humanitas).
A própria noção de que a Verdade possa ter várias faces é em si repulsiva e absurda, mas o seu propósito de desancar a Doutrina Social da Igreja como veículo da Caridade a fim de transformá-la em uma “Teologia da Comunhão na História”, sobeja no documento. O Logos, portanto, deixa de ser a Verdade encarnada e se torna “diálogo”.
Com esteio no “princípio da subsidiariedade”, que Leão XIV alça ao nível de mola propulsora de seu novo sistema de “Doutrina Social” (§§68 e ss., Magnifica Humanitas), a Igreja presta os seus “serviços” como “mediadora” entre os indivíduos e os Estados Modernos. Essa intermediação entre indivíduo e Estado é classicamente papel da política.
Explicitamente, a Igreja se politiza de forma total com Leão XIV.
De forma indubitável, portanto, Leão XIV não apenas reduz a Igreja de nível, mas sobretudo diminui o seu papel na tarefa salvífica, limitando-a a agente político de mediação.
Leão XIV ainda lembra que o primeiro a escrever uma Encíclica para fora da Igreja, dirigindo-a para o público em geral, fora João XXIII. Nota-se que desde lá os papas praticamente pararam de se dirigir ao rebanho e, a partir da Pacem in terris, vem se dirigindo ao mundo. Falar com o rebanho passou a ser tarefas dos Dicastérios e não mais do Papa.
E na Mangifica Humanitas não é diferente. Por essa razão que a alocação de uma perspectiva hegeliana da realidade torna-se vital desde então e não é mais abandonada por nenhum dos sucessores de João XXIII, dentre os quais Leão XIV está incluso e, com esta Encíclica, atingiu o auge da afirmação da liberdade religiosa como “direito fundamental” a fim de criar contexto para se dirigir àquilo que até Pio XII, a Igreja chamava de “hereges” ou “infiéis”.
Essa Doutrina prevostiana ainda acentua a substituição da Caridade pela Solidariedade, razão pela qual Bento XVI, o último a escrever sobre a Virtude Teologal da Caridade, foi quase que totalmente obnubilado nessa Encíclica de Leão XIV – recebeu poucas menções, e na parte da “Caridade”, foi sutilmente “corrigido”.
Prevost ainda consagra, como era de se esperar, a Democracia como valor absoluto, algo que, em documentário, já explicamos se tratar de uma grave heresia. Nesse enredamento, portanto, de louvação da Democracia, desponta a Social-Democracia para dentro da Doutrina Social prevostiana.
Ela em absolutamente nada há de se relacionar com a Doutrina Social da Igreja consagrada até Leão XIII, o último a tratar do tema com fidelidade à Tradição da Igreja.
Essa infidelidade foi quebrada brevemente por Bento XVI, que tentou reinserir (corretamente, a meu ver) a Caridade no centro da Doutrina Social da Igreja – mas é com a sinodalidade de Francisco que a Caridade é acorrentada de vez e lançada ao porão do tosco ambientalismo tornado central naquele papado.
A substituição da “Caridade” pela “Fraternidade”, esta, fruto da Revolução Francesa, se torna um pilar moral inédito na história da Igreja. E Prevost avança em direção à meritocracia, pelo caminho da sinodalide condenando essa “doutrina meritocrática” e sugerindo a sua elevação ao nível de um “pecado mortal”, sem, contudo, usar exatamente essa terminologia.
Em Magnifica Humanitas a “dignidade” (aquela mesma de Maritain) se torna valor absoluto e totalizante, por meio inclusive do louvor despropositado à Declaração Universal dos Direitos do Homem (§§51-54, Magnifica Humanitas).
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O documento teria méritos, sobretudo quando reafirma a sua posição antiaborto (§55, Magnifica Humanitas) ou quando fala que a base da família é a união entre um homem e uma mulher (§165, Idem), mas hesita logo em seguida ao louvar sutilmente a marota ideologia de gênero de verniz feminista (§57, Idem) a fim de expor essa nova Doutrina Social como bem comum da Humanidade. Note-se como todo o esforço é dirigido dando-se as costas para os católicos e sempre de frente para apóstatas do mundo.
E a tarefa a que a Igreja se avoca é de meramente ajudar o Estado no seu papel de buscar coesão para que todos tenham acesso a esse “bem comum” chamado “Doutrina Social”. A Igreja passa a ser então “sujeito comunitário e histórico da sinodalidade em questão”. Qual seja, a Igreja não se presta mais a salvar almas, mas meramente a mediar questiúnculas mundanas e um ou outro quid-pro-quo entre sujeitos e Estados.
E depois de tudo isso, a Encíclica muda bruscamente de linha e troca o assunto, passando a falar de Inteligência Artificial praticamente “out of the blue”.
Daí em diante o texto assume ares de TCC estudantil, explicando coisas sobre o papel da IA no mundo e, como se fosse um blog adolescente, tratando de “transumanismo”, “robótica” e outros temas que parecem ter sido tirados da finada revista teen “Superinteressante”.
Na sequência de barbaridades, fala de educação e larga essa tarefa nas mãos do Estado, explicitamente renunciando ao papel educador da Igreja.
E assim, no contexto desse confuso Capítulo IV da Encíclica, em meio a discussões sobre trabalho, que desponta a segunda heresia: trata-se, novamente, do equivocado “pedido de desculpas” pela “escravidão”, no §176: “Embora não encontremos homogeneidade na questão em si – tendo tolerado durante muito tempo a escravatura e só mais tarde condenando-a de forma absoluta –, há ao longo de toda a história uma continuidade no que respeita à convicção da dignidade de cada ser humano, criado à imagem de Deus, mesmo sem ter conseguido, em dezoito séculos, explicitar oficialmente a total incompatibilidade com a escravatura. Trata-se duma ferida na memória cristã, à qual não podemos ficar alheios. É impossível não sentir profunda dor, ao considerar o enorme sofrimento e humilhação que a escravatura significou para tantas pessoas, em contraste com a sua ilimitada dignidade, amada infinitamente pelo Senhor. Assim sendo, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”.
De pronto, vemos uma contradição interna: logo acima, o Papa combatia a tentativa de homogeneidade, mas é justamente nesse ponto, onde ele afirma com todas as letras que a questão atendeu a essa falta de homogeneidade que, o que era antes uma virtude esperada, passa a ser motivo de autoacusação.
Pior: é uma autoacusação falsa.
Dentre inúmeras Bulas papais onde Leão XIV supõe que a Igreja teria dado apoio à escravidão (o que é falso), a mais controversa seria a de Nicolau V, a Dum Diversas, de 18 de junho de 1452, onde o Papa Nicolau V teria consentindo que fosse dado combate aos Sarracenos recalcitrantes, conferindo as nações católicas o direito de evangelizar o novo mundo contra a vontade de sarracenos e pagãos, sendo ainda possível, em caso de não conversão destes, após “Christi inimicos detenta” (captura dos inimigos de Cristo), “illorumque personas in perpetuam servitutem redigendi” (reduzi-las, tais pessoas, a um regime de servidão eterna).
As demais bulas citadas não tratam explicitamente do tema, mas essa, de Nicolau V, frequentemente interpretada de forma tosca, não obriga, mas admite que, sem conversão, o único caminho possível de servir em reino da Cristandade seria em baixas funções servis. Repito: não é obrigação, mas, sem conversão, a posição social fica limitada – justamente para se evitar que um muçulmano se torne governante dentro de um reino Católico; algo que a Inglaterra vem sofrendo e tem reclamado bastante nos últimos anos.
Não caberia aqui quaisquer pedidos de desculpas pois o regime não foi provocado pela Igreja. O Papa Nicolau V apenas orientou com clareza quais os limites em que um infiel pode alcançar se quiser se manter nos lindes do reino doravante ocupado por católicos.
Nem Nicolau V, nem qualquer outro Papa provocou, estimulou ou promoveu esse regime de produção servil e por isso, imputar à Igreja uma responsabilidade penal objetiva pela escravidão, é, além de ilógico, imoral e equivocado, um ato de profunda heresia.
Não é dado a nenhum Papa assumir culpas em nome da Imaculada e Pura Santa Madre Igreja, julgando a posteriori o contexto de outros Papas que agiram, no auge do seu Magistério, com fidelidade a Deus.
A Igreja não peca e por isso, não faz sentido, nem jurídico e nem teológico, fazer esse mau uso do mandato da cátedra petrina para assumir uma “culpa” que não é sua. Se, entretanto, desejar apontar erros de seus antecessores, que o faça por meio de um Concílio para julgar e apontar esses erros, mas não desse jeito atabalhoado e inconsequente, com o fim de agradar quem nem em comunhão com a Igreja está.
Essa heresia, cometida novamente por uma Papa em Magistério Extraordinário, e agora por escrito em uma Encíclica dirigida para fora da Igreja, acentua a absoluta perda de autoridade disciplinar que, sabemos todos, muito provavelmente será usada em 2 de julho de 2026 contra um grupo cioso que defende a Igreja contra seus detratores e não a entrega acorrentada para esse mesmo grupo que exige desculpas de joelhos de algo que Ela nunca fez.
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Cinicamente o documento fecha com uma mensagem esquisita, em um discurso anti-bellum, colocando nas mãos da Igreja a ideia de que ela tem por papel promover a “Civilização do Amor” junto da ONU.
Ao reafirmar a sua tarefa do “diálogo interreligioso”, refresca o tal “Espírito de Assis” promovido por João Paulo II, onde, pensa Leão XIV, melhor teria se expressado a tal magnífica humanidade, que foi alçada a um posto superior ao da própria Igreja, que, posta de joelhos pelo próprio Papa, pediu “desculpas” não em Nome do Pai, mas em nome de e para todos os filhos espirituais de Judas Iscariotes.



